Líderes religiosos que atuam como psicanalistas reforçam a importância da escuta clínica e defendem que espiritualidade e saúde mental não são caminhos opostos

Reprodução – Comunhão
Pastores evangélicos que também atuam como psicanalistas estão fortalecendo o diálogo entre fé e saúde mental dentro das igrejas. Em meio ao crescimento de casos de ansiedade e depressão entre os fiéis, líderes religiosos que conciliam o ministério pastoral com a escuta clínica defendem que espiritualidade e psicanálise podem caminhar juntas no cuidado integral do ser humano.
Neste 6 de maio, data em que se celebra o Dia do Psicanalista, líderes evangélicos defendem a importância da escuta clínica dentro do universo cristão. A psicanálise, muitas vezes vista com desconfiança por setores mais conservadores da igreja, vem ganhando espaço entre pastores que enxergam a prática como um instrumento complementar ao cuidado espiritual.
“A ciência sem religião é manca, essa é uma frase atribuída a Albert Einstein, que defendia que a busca por conhecimento e a espiritualidade não devem ser campos antagônicos. A frase sugere que a ciência precisa da religião para dar sentido e propósito à vida, e que a religião precisa da ciência para se basear em evidências e não em dogmas. A frase também expressa a ideia de que a laicidade e a liberdade de crença religiosa são valores importantes para a sociedade”, avalia o pastor e psicanalista Sidnei Vicente Paula de Melo.
Segundo ele, a Teologia, como ciência, visa estudar as relações do homem com Deus e objetiva levar as pessoas a reatarem seus relacionamentos com Deus (parte prática da teologia onde está presente o fenômeno religioso e a religião).
“A psicanálise visa levar o indivíduo a buscar reconciliação nos seus relacionamentos circundantes e isso implica, às vezes, a busca de um reatamento intrapsíquico, intrapessoal com o seu próprio interior. ‘Ame a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo’ (Lc 10:27). O papel de ambos é curar, restaurar, reconciliar, liberar e libertar (Is 61:1-7), melhorando a subjetividade do indivíduo para ser refletido na objetividade, pois um coração alegre dá formosura no rosto”, considera.
Saúde mental na igreja
O pastor e psicanalista Anderson Aurora concorda. Para ele, o acolhimento emocional é uma extensão do cuidado espiritual. “A psicanálise pode estreitar o caminho da recuperação da pessoa em estado emocional precário. Em suma, a própria psicanálise é, em sua essência, a cura pelo amor, como bem afirmou Freud, pai da psicanálise”.
Aurora explica que, durante uma análise, muitas dores submersas podem surgir e, por meio da escuta atenta, e de um expressar livre de julgamentos, o analisando e o psicanalista podem transformar o ambiente da análise em um completo espaço de cura terapêutica.
“A igreja pela própria vocação pela qual foi instituída, é um espaço também de acolhimento dos cansados, sobrecarregados e oprimidos. Neste lugar, à luz da palavra de Deus, pessoas além de serem salvas, encontram alívio para suas feridas. A psicanálise entra neste contexto como uma ferramenta capaz de auxiliar na identificação de emoções e se manifesta como uma ferramenta empática, capaz de compreender e elucidar possíveis traumas ou feridas, ajudando numa possível libertação de prisões emocionais”, argumenta Aurora.
Para os entrevistados, o Dia do Psicanalista é mais do que uma data comemorativa. É um momento de reafirmar o compromisso com a escuta, com a ética e com o respeito à dor do outro — princípios que, segundo eles, também fazem parte do evangelho.
FONTE: Comunhão