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O doutor, escritor e pastor Adenilton Aguiar ressalta que, apesar dos símbolos e das profecias apocalípticas alimentarem o imaginário de algumas pessoas, o texto sagrado foi feito para ser entendido, não temido

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Sempre que algo de grande impacto global acontece, há quem recorra ao livro do Apocalipse para tentar encaixar os fatos em alguma profecia bíblica — mesmo que o texto não fale nada diretamente sobre o evento. Esse tipo de leitura sensacionalista, no entanto, diz mais sobre a necessidade humana de controle do que sobre o conteúdo bíblico em si. E é justamente aí que mora o risco, na tentativa de interpretar o Apocalipse a partir de manchetes e não da própria Escritura.

Ao contrário do que muitos pensam, o Apocalipse não é um código indecifrável reservado a teólogos e especialistas. O próprio nome do livro já desmente essa ideia. Como explica o pastor Adenilton Aguiar, líder da Igreja Adventista do Sétimo Dia, escritor, professor de Teologia e Doutor em Novo Testamento, com ênfase em Apocalipse, pela Andrews University, nos Estados Unidos.

“A palavra que abre o livro de Apocalipse é ‘revelação’, que no grego é ‘apokalypsis’. Ela vem da raiz ‘kalyptō’, que significa ‘cobrir’, e da partícula ‘apo’, que funciona como ‘des’ em português. Ou seja, Apocalipse é o ato de ‘descobrir’, ‘revelar’. O livro foi feito para tirar o véu, não para esconder”, explica.

De acordo com o pastor, a intenção de João é clara desde os primeiros versos. Em Apocalipse 1:3 lemos: “Bem-aventurado aquele que lê e aqueles que ouvem as palavras da profecia e guardam as coisas nela escritas”. “Como é que uma pessoa pode obedecer a uma ordem, se ela não entende essa ordem?”, observa pastor Adenilton, complementando que a estrutura do livro já pressupõe que a mensagem foi feita para ser compreendida por quem lê, ouve e pratica.

Para quem o livro foi escrito?

Outro ponto muitas vezes negligenciado é o público original do Apocalipse, explica o pastor que também é , é que João escreve para sete igrejas na Ásia Menor compostas por pessoas comuns, homens, mulheres, jovens, idosos, trabalhadores de diferentes níveis educacionais; não para uma elite intelectual.

“Apocalipse não foi escrito para especialistas. Foi feito pra igrejas”, enfatiza Adenilton. Isso significa que o texto precisa fazer sentido para os cristãos do primeiro século, assim como para nós hoje.

Três lentes, um mesmo livro

Uma das razões pelas quais o Apocalipse causa tanta polêmica é a variedade de interpretações possíveis que foram sendo disseminadas no decorrer do tempo. Entre as principais escolas estão:

Preterismo: entende o Apocalipse como um relato de eventos já cumpridos, especialmente no contexto do Império Romano e das perseguições aos cristãos do primeiro século.

Futurismo: lê o livro como um mapa dos eventos finais da história, com enfoque na escatologia. Muitos futuristas ligam as profecias a Israel literal e ao cenário do Oriente Médio.

Idealismo: interpreta o Apocalipse de forma simbólica, sem relação direta com eventos históricos, mas como um manual de espiritualidade e conduta cristã.

Há também abordagens híbridas, que combinam aspectos dessas três lentes. Adenilton posiciona-se entre os que veem o Apocalipse como uma narrativa profética da história da igreja desde João até hoje, sem excluir o futuro: “Acreditamos que Deus revela o futuro. Por exemplo, Amós 3:7 diz: ‘Certamente o Senhor Deus não fará coisa alguma sem revelar o seu segredo aos seus servos, os profetas’”.

Uma lente reformada

Entre as principais correntes de interpretação do Apocalipse, está o historicismo, uma abordagem que entende as profecias bíblicas — especialmente as do livro de Daniel e do Apocalipse — como uma narrativa simbólica e progressiva da história da Igreja e do mundo, desde os tempos bíblicos até o fim dos tempos.

Essa leitura foi predominante entre os reformadores protestantes do século XVI, como Martinho Lutero e João Calvino, que viam nas figuras apocalípticas, como a besta e o anticristo, uma representação do sistema corrompido da Igreja Romana de seus dias. Eles acreditavam que as profecias estavam se cumprindo gradualmente ao longo da história, sendo os eventos do seu tempo parte desse cumprimento profético.

Essa mesma perspectiva foi assumida mais tarde pelos adventistas, que se consolidaram no século XIX nos Estados Unidos. Para eles, o Apocalipse descreve em detalhes as fases da história cristã e mundial, culminando com o juízo investigativo, a segunda vinda de Cristo e a restauração final, baseando-se no historicismo e em eventos históricos e cronologias proféticas, como os 1260 dias (anos), as 2300 tardes e manhãs e a profecia das sete igrejas.

Diferente do preterismo, que vê as profecias como já cumpridas no passado, e do futurismo, que coloca a maioria delas no fim dos tempos, o historicismo oferece uma visão de continuidade, em que cada geração pode se encontrar dentro da narrativa apocalíptica. Ele propõe que estamos vivendo dentro do próprio cenário do Apocalipse, como parte de uma linha profética que caminha para seu clímax.

Contra a ansiedade escatológica

A leitura apressada do Apocalipse costuma estar carregada de medo. Mas o propósito do livro, segundo explica o pastor, não é alimentar pânico ou criar ansiedade escatológica. Em vez disso, ele oferece esperança, reforça a soberania de Deus sobre a história e convida à fidelidade cristã mesmo em tempos de crise.

Interpretá-lo exige responsabilidade, estudo e humildade. Mais do que encaixar manchetes em profecias, como fazem os profetas de redes sociais, é preciso deixar que a própria Escritura fale. Como ensina o próprio livro, quem lê e ouve com atenção é feliz; não porque descobre o futuro em detalhes, mas porque encontra sentido, direção e coragem para viver o presente com fé.

FONTE: Comunhão