O desafio da Páscoa cristã moderna é equilibrar fé e cultura sem perder o foco no sacrifício e na ressurreição de Cristo. Entender as simbologias é fundamental nesse processo

Reprodução – Comunhão
A imagem clássica da Páscoa nos supermercados, cheias de ovos de chocolate e coelhos de pelúcia, não combina com o que se ouve nas igrejas durante esse período. De um lado, a celebração mais importante do calendário cristão, que marca a vitória de Jesus sobre a morte. Do outro, um festival de marketing, doces e mascotes. Guloseimas à parte, é importante o cristão estar ciente dessa simbologia para não deixar a barriga falar mais alto que a fé.
Essa tensão entre o sagrado e o simbólico não é nova, mas se intensifica num mundo onde os apelos visuais e as tradições seculares convivem com práticas de fé. Não à toa, há quem se sinta desconfortável ao ver símbolos como ovos coloridos ou o coelhinho sendo associados ao evento central do cristianismo.
A origem da Páscoa
A Páscoa judaica, chamada de Pessach, é uma das festas mais importantes do calendário hebraico e celebra a libertação do povo de Israel da escravidão no Egito, conforme narrado no livro do Êxodo. A comemoração relembra a noite em que Deus poupou os lares dos israelitas durante a décima praga (a morte dos primogênitos) e marca o início da caminhada rumo à terra prometida.
Durante a celebração, famílias judaicas realizam o sêder, uma refeição simbólica que inclui alimentos como o cordeiro assado, ervas amargas e pão sem fermento (matzá), cada um representando aspectos da opressão e da libertação vividas por seus antepassados.
Para os cristãos, essa festa também tem um significado especial, pois aponta para Jesus como o “Cordeiro de Deus”, cuja morte e ressurreição trazem libertação espiritual definitiva.
A origem da palavra “Páscoa” (em inglês, Easter) é uma das maiores fontes de debate. O historiador medieval Beda afirmou que o nome derivava de Eostre, deusa anglo-saxônica da primavera e da fertilidade.
Já estudiosos citados pela Britannica atribuem a etimologia ao termo latino albis, entendido como “amanhecer”, o que aponta para uma interpretação cristã ligada à luz da ressurreição. Em comum entre as versões está a tentativa de marcar a passagem do inverno para a vida nova física ou espiritual.
O motivo de se usar ovos
Essa sobreposição de símbolos também aparece na tradição dos ovos. “Os primeiros cristãos adotaram o ovo (que anteriormente era um símbolo pagão de nova vida que vem dos ciclos de renovação da natureza) como um símbolo da Páscoa porque a casca dura do ovo representa o túmulo selado de Jesus, e quebrar a casca simboliza Sua Ressurreição”, escreveu Whitney Hopler, da Crosswalk. Ou seja, o que começou fora da fé pode ter sido ressignificado por ela.
Cristãos diante do coelho
Mas o que dizer do coelhinho? Ao contrário do ovo, ele não possui ligação direta com nenhuma narrativa bíblica. No imaginário popular, representa fertilidade, multiplicação e alegria, temas que, por si só, não são negativos. O problema surge quando esses elementos substituem, em vez de apontar, para o verdadeiro sentido da Páscoa.
O pastor e conselheiro familiar Gilson Bifano alerta que existem dois extremos e é preciso discernir. “A primeira dessas correntes se manifesta na supervalorização excessiva das festas e ritos judaicos. (…) A segunda corrente extremista prega que não devemos sequer mencionar a existência dessas festas, recomendando que não se celebre, em especial a Páscoa e o Natal”, explica. Em vez disso, propõe um caminho mais equilibrado. “Prefiro o caminho do equilíbrio, buscando extrair dessas festas as lições valiosas e o seu profundo significado para a fé cristã”, diz.
Entre a cruz e o chocolate
Para famílias cristãs, especialmente com crianças, esse movimento simbólico pode ser um ponto delicado. É possível explicar a cruz sem demonizar o coelho? É possível comer chocolate sem esquecer o Cordeiro? Sim, se o foco estiver no ensino intencional.
“Estamos na semana da Páscoa, um momento propício para refletir sobre o sacrifício de Cristo e a esperança da ressurreição”, destaca Bifano. Ele sugere práticas como um almoço em família com cordeiro (em referência ao sacrifício instituído em Êxodo 12) e conversas sobre o significado da celebração. Pequenos gestos que podem transformar a mesa do feriado num espaço de edificação espiritual.
“A Páscoa é uma excelente oportunidade para evangelizar amigos, vizinhos e parentes, compartilhando com eles a mensagem de esperança e salvação que encontramos em Cristo. Você pode usar essa oportunidade para explicar o plano da salvação e convidar as pessoas a entregarem suas vidas a Jesus”, diz o pastor.
Talvez o coelhinho não precise ser o vilão da história. Mas também não deve ser o protagonista. A fé cristã convida a uma vivência mais profunda da Páscoa, que vai além da casca do ovo ou do apelo comercial. Trata-se de reconhecer a ressurreição como um acontecimento que muda tudo, inclusive a forma como se vive, ensina e celebra.
Símbolos não são neutros, mas também não são imutáveis. No coração da Páscoa está a mensagem de vida que vence a morte, de amor que redime e de um Deus que se faz presente mesmo quando os sentidos se distraem.
Cabe ao cristão moderno (adulto, pai, mãe, educador ou jovem) escolher que narrativa alimentar se a da superfície ou a da ressurreição. Afinal, o maior presente da Páscoa não cabe em um ovo. Ele está numa tumba vazia.
FONTE: Comunhão